Um brasileiro com nome de gringo cria um programa educacional 3D inédito, que atrai professores e alunos de 12 países
Ao voltar das férias no começo de 2006, Jair Messias Ferreira Júnior, professor de História e Geografia da Escola Estadual Armando Gaban, de Osasco, deparou-se com um desafio: ele precisaria freqüentar um curso de informática. O colégio fechara um contrato de licenciamento com a empresa P3D e, a partir daquele momento, usaria um revolucionário programa educativo com conteúdo exibido em três dimensões. Ao chegar à sala de aula, Ferreira mostrou aos alunos que bastava tocar um dedo na tela touch screen para o sistema solar aparecer e se movimentar.
O P3D roda em um computador comum e é projetado em um telão, onde um professor de Biologia pode, por exemplo, mostrar o esqueleto humano em três dimensões, girando a figura na tela. Ele pode escrever, com o mouse, observações sobre as figuras e destacar os pontos importantes da imagem. O melhor de tudo: os alunos passaram a interagir mais.
"Eles participam muito mais, pois posso pedir que montem o sistema solar, como se fosse um jogo", conta Ferreira. Pois essa tecnologia foi desenvolvida aqui no Brasil, mais especificamente na Universidade de São Paulo. Quem assina a criação é o paulista Mervyn Lowe, 42 anos. Até 1999, ele seguia a trajetória típica de um administrador de empresas e já acumulava experiência de cinco anos na área de RH na filial brasileira da Enron, quando a empresa protagonizou um dos maiores escândalos corporativos da história dos EUA. "A essa altura, eu já estava insatisfeito e pedi demissão", conta ele. Nessa época conheceu um especialista em informática que estava desenvolvendo um software em 3D. Faltava- lhe, porém, o lado empreendedor, que Lowe supriu. Daí nasceu a P3D. Mervyn hoje é sócio e CEO da P3D, que distribui o software na forma de DVD para 160 escolas brasileiras (sendo duas públicas) e exporta para 300 colégios em 12 países. Cada licenciamento custa R$ 1,3 mil por mês.
O P3D em funcionamento (acima): a interatividade estimula os alunos
Após um período inicial no Centro Incubador de Empresas Tecnológicas da Universidade de São Paulo e um investimento inicial de R$ 500 mil, bancado por um amigo de Mervyn, o programa foi lançado em 2004. No ano seguinte as vendas deslancharam. O total investido somou R$ 3 milhões. Atualmente, escolas de países como EUA e Finlândia, referências em ensino de alta qualidade, compram o software. Com isso, a receita da P3D chegou a US$ 920 mil em 2007, quando nem todas as 460 escolas faziam parte da carteira de clientes. Além disso, no ano passado, ainda não estava disponível o conteúdo de Química. "A maior inovação foi usar a cara tecnologia 3D e rodá-la em qualquer computador que tenha no mínimo 1GB de memória e Windows Vista", diz Mervyn. "Estamos trabalhando para rodar o programa em Linux, o que beneficiará as escolas públicas."
O conteúdo do programa, por enquanto disponível para Biologia, Geografia e Química, é atualizado a cada quatro meses por cinco professores da USP. Eles já estão trabalhando no conteúdo de Física e pretendem desenvolver, em três anos, Matemática e História. Os ganhos são visíveis. "Para explicar o olho humano, por exemplo, podemos mostrá-lo por fora e fazer um corte para ver as estruturas internas", explica Juana Ordonez, professora de Ciências do Colégio Miguel de Cervantes, de São Paulo. O professor Ferreira também aprova a novidade.
"Essa lousa é o começo do futuro da educação, e eu espero que chegue em breve a todas as escolas públicas do Brasil", conclui.