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Diário da Manhã - GO
16/02/2007 - 08:17

Alma kitsch

Estilo já foi associado a termos como brega e cafona. Hoje reflete uma atitude crítica e irreverente de quem o segue

Erika Lettry

DivulgaçãoDivulgação
Deputada Isaura Lemos gosta de misturas inusitadas em sua casa. Objetos com estampas de vaquinha dão toque irreverente
Vasculhe os objetos da sua casa e veja o que encontra. Flores de plástico? Ímãs ou pingüins de geladeira? Panos de prato com estampa de vaquinha? Cópias de quadros famosos? Estatuetas de falsa porcelana? Se encontrou algum desses enfeites espalhados por aí, pode ter certeza: existe uma porção kitsch em você.

Mas não se assuste. Ninguém vai pensar que você é cafona. O estilo kitsch está na moda, estampado nas roupas, nos objetos de arte, na decoração de bares e restaurantes e até nas fachadas dos motéis, denotando uma atitude irreverente e descolada de seus adeptos.

Para quem não sabe, kitsch é um termo alemão usado inicialmente para designar objetos de valor estético discutível, além de um certo gosto pelo exagero e falsificação. Acredita-se que este estilo ganhou força no começo do século 20, como crítica ao consumismo exacerbado. “Uma tradução possível para kitsch seria ‘colocar mais móveis que o ambiente comporta’. Era um termo pejorativo utilizado para criticar a burguesia em ascensão, preocupada em consumir demais para se igualar às classes altas”, explica o antropólogo e arquiteto Lauro Cavalcanti, um dos autores de Arquitetura Kitsch Suburbana e Rural, livro que acaba de ser relançado pela editora Paz e Terra.

Não por acaso, uma das características do kitsch é a mistura exagerada de vários estilos. A deputada Isaura Lemos transmite uma imagem clássica e discreta. Mas confessa que, na decoração de casa, adora misturar objetos inusitados. “Tenho vasos da China, xadrez nordestino, estátuas de Lampião e Maria Bonita, cerâmicas... Minha cozinha tem relógio, porta-papel, temperos e pano-de-prato com estampa de vaquinha. Tudo isso dá uma ar irreverente à casa”, diverte-se Isaura.

Contemporâneo ou cafona? – Por sua origem, a palavra kitsch acabou fortemente associada ao cafona. Mas hoje é possível estabelecer algumas diferenças entre ambos. “Para ser um legítimo kitsch, é preciso ter um engajamento cultural, acompanhado de propósito”, explica a designer de moda Lorena Abdala. Em outras palavras, a pessoa kitsch expressa por meio da aparência uma ideologia de vida. Ela faz paródias – quase sempre debochadas – das imagens do cotidiano.

“Na época em que fiz a pesquisa para meu livro Arquitetura Kitsch, criei duas categorias de kitsch”, explica Lauro Cavalcanti. “Tem o kitsch passivo, que representa a burguesia tentando entrar na moda e consumindo tudo que encontra pela frente, e o kitsch criativo, que constrói signos por meio de símbolos.” O arquiteto cita como referência em seu livro a Casa do Mágico, famosa no Rio de Janeiro. “A casa é extravagante, possui cores berrantes e fosforescentes. Ela chama a atenção porque tem aquela coisa do morador expressar sua visão de mundo”, conta.

Lorena Abdala lembra que na última coleção outono/inverno das grandes marcas brasileiras, os estilistas tentaram criar – ainda que timidamente – uma produção mais kitsch, com estampas chamativas e mistura de acessórios atuais com retrô. Mas ela não acredita que esta tendência chegue ao Estado. “Os goianos não costumam se arriscar com o kitsch na hora de vestir”, prevê. Para a designer de moda, é preciso muita personalidade para adotá-lo. Além disso, ressalta, deve haver um desejo claro de transmitir uma mensagem. Por isso ela elege o cantor Falcão como o famoso mais kitsch do Brasil. “O Falcão é kitsch, não brega. Porque toda escolha que ele faz – ao se vestir, ao escrever letras de músicas – é intencional”, explica.

A artista plástica Patrícia Mesquita tem uma visão parecida. “O kitsch é uma releitura, enquanto o cafona é simplesmente estar fora de moda.” O estilo kitsch é sua marca registrada e está no jeito de vestir, na decoração de casa e até mesmo na arte que produz. “Sou muito contemporânea. Gosto de resgatar épocas e criar novas linguagens. Adoro tudo que é glamouroso, divertido e falsificado. Uso anéis de plástico, plataforma com glitter, colar roxo com amarelo...”, enumera. A artista é famosa por trabalhar com materiais como vinil, luz negra, plástico e pelúcia. “Já fiz trabalhos com esculturas enormes de pelúcia e quadros com esmalte sintético fosforescente”, lembra.

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